Advocacia Aberta: dado jurídico legível antes do modelo de IA
Projeto brasileiro aberto ataca a causa da citação inventada: o dado jurídico ilegível. Base curada de STF e STJ, dez protocolos executáveis e fontes verificáveis, com os casos do cliente sempre privados.

Quando o assistente de IA cita uma jurisprudência que não existe, a conclusão apressada é culpar a ferramenta. O Advocacia Aberta parte de outra hipótese: a alucinação é o sintoma, e a doença é o dado jurídico ilegível. É um projeto brasileiro, aberto e gratuito, que organiza o acervo e escreve o método para a IA conseguir trabalhar com fonte — em vez de trabalhar com memória.
A proposta é o oposto de um advogado automático. É infraestrutura: um acervo curado, um conjunto de protocolos executáveis e motores de busca que rodam no ambiente do escritório. O profissional continua decidindo — o que muda é o material com que ele decide.
O sintoma e a doença
A frase que resume o projeto está no próprio manifesto: a alucinação não é a doença, é o sintoma. Quando o dado está disperso em PDF, planilha, e-mail e portal de tribunal, o modelo não tem o que consultar — e passa a completar lacuna com plausibilidade. O caminho apontado é anterior à escolha do modelo: dado legível vem antes do modelo.
A alucinação não é a doença — é o sintoma. A doença é o dado ilegível.Manifesto do projeto Advocacia Aberta
O que o projeto reúne hoje
Não é uma proposta no papel: o repositório já traz um acervo formado apenas por fontes públicas, cada registro com origem identificada. Os números abaixo descrevem os arquivos desta versão.
| Camada | O que está lá |
|---|---|
| Legislação | 273 conjuntos de legislação, com 22.180 registros de dispositivos |
| Súmulas | 1.475 registros de STJ, STF e súmulas vinculantes |
| Teses | 3.508 registros de Jurisprudência em Teses do STJ, em 283 edições |
| Temas | 1.462 temas repetitivos do STJ e 1.470 temas de repercussão geral do STF |
| Informativo | 11.567 julgados resumidos do Informativo STF, em 1.211 edições |
| Acórdãos | 11.133 espelhos de acórdãos dos órgãos uniformizadores do STJ, com ementa e tese |
O próprio projeto registra a ressalva: as bases são fotografias de trabalho e não significam, por si sós, vigência, completude ou atualização na data da consulta. O catálogo aponta proveniência e limitações, e há um protocolo de atualização que compara mudanças sem sobrescrever a base vigente. Conferir a fonte continua sendo parte do trabalho.
Dez protocolos: o método em passos executáveis
A segunda metade do projeto é o método. Cada protocolo descreve entradas, passos, critérios, saída e limitações — de forma que o trabalho deixe de depender do improviso de cada conversa. São dez, e eles se encaixam em uma sequência de trabalho jurídico.
| Protocolo | O que faz |
|---|---|
| Organizar caso | Lê os documentos e produz um sumário do caso |
| Diagnosticar | Mapeia forças e fragilidades em um diagnóstico escrito |
| Buscar fontes | Pesquisa legislação, súmulas, temas e teses na base local |
| Buscar acórdãos | Pesquisa e lê acórdãos no portal do tribunal |
| Redigir peça | Planeja e redige a peça jurídica |
| Revisar peça | Audita provas, fontes, argumentos e fragilidades |
| Transcrever | Converte áudio e vídeo em texto |
| Diagramar peça | Produz o PDF final com desenho simples e legível |
| Criar protocolo | Constrói um novo procedimento junto com o usuário, por entrevista |
| Preparar ambiente | Instala sob demanda o que faltar para rodar o resto |
Em um caso típico, a sequência fica assim: organizar o caso, diagnosticar, buscar fontes, redigir, revisar e diagramar. A maior parte dos protocolos roda sem instalação adicional.
Duas portas de entrada
O projeto foi desenhado para dois perfis — e é isso que o torna utilizável em escritório que não tem equipe de tecnologia.
Conectar sem instalar nada
O acervo pode ser conectado ao assistente de IA que o escritório já usa, por um conector padronizado (MCP). A partir daí, o assistente passa a consultar lei, súmula, tese e jurisprudência com a fonte oficial de cada item. Não é preciso instalar programa, nem trocar de assinatura — o acervo é aberto e sem custo.
Rodar o método inteiro no ambiente do escritório
Quem quer a via completa baixa o projeto e roda no agente local: aí entram transcrição de audiência, pesquisa no portal do tribunal e geração de PDF. O caso fica em uma pasta própria, dentro do ambiente do escritório.
Auditoria: a parte que interessa a quem assina
O ponto mais incomum do projeto não é o acervo: é a preocupação em se deixar auditar. Em vez de pedir confiança, ele publica como se verifica.
- Toda mudança no motor de busca passa por um teste de regressão com 89 consultas julgadas à mão, medindo acerto nas primeiras posições.
- Cada correção de dado gera relatório com a fonte consultada, a mudança feita e o teste aplicado.
- Um monitoramento agendado vigia as fontes oficiais e avisa quando algo muda — sem promover alteração sozinho.
- O protocolo de revisão audita cada citação da peça e classifica o precedente.
Cada precedente citado recebe um dos quatro rótulos: confirmado, substituível, forçado ou inexistente. É uma forma simples de separar o que sustenta a tese do que apenas parece sustentar — e de pegar a citação inventada antes de ela ir para o protocolo.
Método público, caso privado
A fronteira está escrita com clareza: protocolos, ferramentas e bases formadas por fontes públicas podem ser compartilhados; autos, áudios, dados pessoais, estratégias e peças de cliente não. Cada matéria mora em uma pasta de caso, e os casos reais ficam fora do que é publicado por padrão.
O próprio projeto avisa: manter o caso fora do que é publicado é apenas uma barreira contra publicação acidental. Não substitui controle de acesso por pessoa, armazenamento seguro e política de retenção — exatamente o que a governança de identidade e acessos trata no escritório.
O que isso muda na rotina
- Reduz o risco que mais assusta: a citação que não existe, porque a consulta passa a ter fonte e a revisão passa a ter rótulo.
- Encurta a etapa de levantar e organizar material, que é a parte cara da pesquisa.
- Padroniza o trabalho entre advogados: o mesmo protocolo para o mesmo tipo de tarefa.
- Deixa rastro do que foi consultado, o que ajuda em auditoria e na conversa com o cliente.
- Começa sem custo de licença e sem trocar o que o escritório já usa.
O que ele não resolve
Vale ser honesto para não repetir o erro de tratar ferramenta como solução. Não é advogado automático: a decisão jurídica continua sendo do profissional. A base é uma fotografia e precisa de conferência de vigência. E nenhuma verificação automática substitui a leitura da fonte — o ganho é chegar na fonte mais rápido e com menos ruído.
Dado legível vem antes do modelo — no Direito como em qualquer operação.Emidio Trancoso, autor do projeto
Como avaliar em uma semana
Projeto aberto se avalia com uso, não com apresentação. Uma semana é suficiente para decidir se faz sentido para o escritório.
- Escolha um caso real já encerrado e refaça a pesquisa nele.
- Compare as citações encontradas com as que você usou na época.
- Rode a revisão e veja quantos precedentes voltam como forçado ou inexistente.
- Meça o tempo de pesquisa antes e depois, na mesma tarefa.
- Defina com o sócio o que pode entrar no ambiente e o que nunca sai do escritório.
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