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Advocacia Aberta: dado jurídico legível antes do modelo de IA

Projeto brasileiro aberto ataca a causa da citação inventada: o dado jurídico ilegível. Base curada de STF e STJ, dez protocolos executáveis e fontes verificáveis, com os casos do cliente sempre privados.

Equipe IDEIA··8 min de leitura
Advocacia Aberta: dado jurídico legível antes do modelo de IA

Quando o assistente de IA cita uma jurisprudência que não existe, a conclusão apressada é culpar a ferramenta. O Advocacia Aberta parte de outra hipótese: a alucinação é o sintoma, e a doença é o dado jurídico ilegível. É um projeto brasileiro, aberto e gratuito, que organiza o acervo e escreve o método para a IA conseguir trabalhar com fonte — em vez de trabalhar com memória.

A proposta é o oposto de um advogado automático. É infraestrutura: um acervo curado, um conjunto de protocolos executáveis e motores de busca que rodam no ambiente do escritório. O profissional continua decidindo — o que muda é o material com que ele decide.

O sintoma e a doença

A frase que resume o projeto está no próprio manifesto: a alucinação não é a doença, é o sintoma. Quando o dado está disperso em PDF, planilha, e-mail e portal de tribunal, o modelo não tem o que consultar — e passa a completar lacuna com plausibilidade. O caminho apontado é anterior à escolha do modelo: dado legível vem antes do modelo.

A alucinação não é a doença — é o sintoma. A doença é o dado ilegível.Manifesto do projeto Advocacia Aberta

O que o projeto reúne hoje

Não é uma proposta no papel: o repositório já traz um acervo formado apenas por fontes públicas, cada registro com origem identificada. Os números abaixo descrevem os arquivos desta versão.

CamadaO que está lá
Legislação273 conjuntos de legislação, com 22.180 registros de dispositivos
Súmulas1.475 registros de STJ, STF e súmulas vinculantes
Teses3.508 registros de Jurisprudência em Teses do STJ, em 283 edições
Temas1.462 temas repetitivos do STJ e 1.470 temas de repercussão geral do STF
Informativo11.567 julgados resumidos do Informativo STF, em 1.211 edições
Acórdãos11.133 espelhos de acórdãos dos órgãos uniformizadores do STJ, com ementa e tese
Snapshot não é vigência

O próprio projeto registra a ressalva: as bases são fotografias de trabalho e não significam, por si sós, vigência, completude ou atualização na data da consulta. O catálogo aponta proveniência e limitações, e há um protocolo de atualização que compara mudanças sem sobrescrever a base vigente. Conferir a fonte continua sendo parte do trabalho.

Dez protocolos: o método em passos executáveis

A segunda metade do projeto é o método. Cada protocolo descreve entradas, passos, critérios, saída e limitações — de forma que o trabalho deixe de depender do improviso de cada conversa. São dez, e eles se encaixam em uma sequência de trabalho jurídico.

ProtocoloO que faz
Organizar casoLê os documentos e produz um sumário do caso
DiagnosticarMapeia forças e fragilidades em um diagnóstico escrito
Buscar fontesPesquisa legislação, súmulas, temas e teses na base local
Buscar acórdãosPesquisa e lê acórdãos no portal do tribunal
Redigir peçaPlaneja e redige a peça jurídica
Revisar peçaAudita provas, fontes, argumentos e fragilidades
TranscreverConverte áudio e vídeo em texto
Diagramar peçaProduz o PDF final com desenho simples e legível
Criar protocoloConstrói um novo procedimento junto com o usuário, por entrevista
Preparar ambienteInstala sob demanda o que faltar para rodar o resto

Em um caso típico, a sequência fica assim: organizar o caso, diagnosticar, buscar fontes, redigir, revisar e diagramar. A maior parte dos protocolos roda sem instalação adicional.

Duas portas de entrada

O projeto foi desenhado para dois perfis — e é isso que o torna utilizável em escritório que não tem equipe de tecnologia.

Conectar sem instalar nada

O acervo pode ser conectado ao assistente de IA que o escritório já usa, por um conector padronizado (MCP). A partir daí, o assistente passa a consultar lei, súmula, tese e jurisprudência com a fonte oficial de cada item. Não é preciso instalar programa, nem trocar de assinatura — o acervo é aberto e sem custo.

Rodar o método inteiro no ambiente do escritório

Quem quer a via completa baixa o projeto e roda no agente local: aí entram transcrição de audiência, pesquisa no portal do tribunal e geração de PDF. O caso fica em uma pasta própria, dentro do ambiente do escritório.

Auditoria: a parte que interessa a quem assina

O ponto mais incomum do projeto não é o acervo: é a preocupação em se deixar auditar. Em vez de pedir confiança, ele publica como se verifica.

  • Toda mudança no motor de busca passa por um teste de regressão com 89 consultas julgadas à mão, medindo acerto nas primeiras posições.
  • Cada correção de dado gera relatório com a fonte consultada, a mudança feita e o teste aplicado.
  • Um monitoramento agendado vigia as fontes oficiais e avisa quando algo muda — sem promover alteração sozinho.
  • O protocolo de revisão audita cada citação da peça e classifica o precedente.
A classificação que muda a revisão

Cada precedente citado recebe um dos quatro rótulos: confirmado, substituível, forçado ou inexistente. É uma forma simples de separar o que sustenta a tese do que apenas parece sustentar — e de pegar a citação inventada antes de ela ir para o protocolo.

Método público, caso privado

A fronteira está escrita com clareza: protocolos, ferramentas e bases formadas por fontes públicas podem ser compartilhados; autos, áudios, dados pessoais, estratégias e peças de cliente não. Cada matéria mora em uma pasta de caso, e os casos reais ficam fora do que é publicado por padrão.

Ignorar a pasta não é controle de acesso

O próprio projeto avisa: manter o caso fora do que é publicado é apenas uma barreira contra publicação acidental. Não substitui controle de acesso por pessoa, armazenamento seguro e política de retenção — exatamente o que a governança de identidade e acessos trata no escritório.

O que isso muda na rotina

  • Reduz o risco que mais assusta: a citação que não existe, porque a consulta passa a ter fonte e a revisão passa a ter rótulo.
  • Encurta a etapa de levantar e organizar material, que é a parte cara da pesquisa.
  • Padroniza o trabalho entre advogados: o mesmo protocolo para o mesmo tipo de tarefa.
  • Deixa rastro do que foi consultado, o que ajuda em auditoria e na conversa com o cliente.
  • Começa sem custo de licença e sem trocar o que o escritório já usa.

O que ele não resolve

Vale ser honesto para não repetir o erro de tratar ferramenta como solução. Não é advogado automático: a decisão jurídica continua sendo do profissional. A base é uma fotografia e precisa de conferência de vigência. E nenhuma verificação automática substitui a leitura da fonte — o ganho é chegar na fonte mais rápido e com menos ruído.

Dado legível vem antes do modelo — no Direito como em qualquer operação.Emidio Trancoso, autor do projeto

Como avaliar em uma semana

Projeto aberto se avalia com uso, não com apresentação. Uma semana é suficiente para decidir se faz sentido para o escritório.

Na prática
  • Escolha um caso real já encerrado e refaça a pesquisa nele.
  • Compare as citações encontradas com as que você usou na época.
  • Rode a revisão e veja quantos precedentes voltam como forçado ou inexistente.
  • Meça o tempo de pesquisa antes e depois, na mesma tarefa.
  • Defina com o sócio o que pode entrar no ambiente e o que nunca sai do escritório.

Perguntas frequentes

Não. O próprio projeto se apresenta como infraestrutura aberta: um acervo jurídico curado e um método escrito, para que o assistente consulte fonte em vez de completar lacuna. A decisão jurídica, a escolha da tese e a responsabilidade pela peça continuam sendo do advogado.
Para o uso mais simples, não: o acervo pode ser conectado ao assistente de IA que o escritório já usa, por um conector padronizado, e passa a responder com a fonte oficial de cada item. A instalação só é necessária para a via completa, que inclui transcrição de audiência, pesquisa no portal do tribunal e geração de PDF.
O projeto separa método público de caso privado: o acervo é formado por fontes públicas e pode ser compartilhado, mas autos, áudios, dados pessoais e peças de cliente não. A recomendação é manter o caso no ambiente do escritório, com permissão por pessoa e registro de acesso, e nunca tratar a pasta de casos como área segura por si só.
Escrito por
Equipe IDEIA
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