RAG jurídico: o que funcionou, o que não funcionou e por quê
Projeto aberto de pesquisa em linguagem natural sobre STF, STJ e legislação — e, mais útil que o resultado, o relato honesto dos becos sem saída: quatro tentativas que não deram certo e o que ficou no lugar.

Todo projeto de IA jurídica tem uma parte que ninguém publica: as tentativas que não deram certo. O RAG Jurídico BR fez o contrário — construiu um sistema de pesquisa em linguagem natural sobre documentos reais do STF, do STJ e da legislação brasileira e documentou os becos sem saída com o motivo de cada um.
Para quem está decidindo se monta busca inteligente no escritório, esse relato vale mais do que a demonstração. Ele mostra onde o dinheiro e o tempo costumam ser perdidos.
Como o projeto funciona
São dois caminhos separados, e entender essa separação é o primeiro passo de qualquer projeto sério de recuperação de informação.
- Indexação, que roda uma vez: os documentos entram, o texto é extraído com seus metadados, o conteúdo é dividido em blocos e cada bloco vira um vetor, guardado em um índice local.
- Consulta, que roda a cada pergunta: a pergunta também vira vetor, o sistema busca os blocos mais parecidos, monta o contexto com as referências e só então gera a resposta.
- A resposta sai citando de onde veio, e a geração de texto é opcional — sem ela, o sistema já devolve os trechos mais relevantes.
Um advogado não pode usar a IA disse que como argumento. Com recuperação, cada resposta aponta qual lei, qual artigo e qual página — e é essa rastreabilidade que separa assistente de pesquisa de gerador de texto bonito.
As quatro tentativas que não deram certo
Esta é a parte mais valiosa do projeto, e ela está escrita no próprio texto de apresentação.
1. Dividir o texto por parágrafo
A ideia era preservar parágrafos naturais. O problema: PDF jurídico extraído perde a formatação original, e um acórdão de 40 páginas chega como um texto contínuo — os blocos saíam com cinco palavras ou com duas mil, e a sobreposição entre eles ficava inconsistente. O que ficou no lugar: divisão por contagem de palavras, com sobreposição fixa. Menos elegante, muito mais robusto para qualquer documento.
2. Usar um modelo de vetor genérico
A tentativa foi usar um modelo de vetor de uso geral, com bom desempenho em vários idiomas. O resultado: expressões jurídicas brasileiras — tutela antecipada, mandado de segurança, habeas data, precatório — não ficavam bem representadas. O que ficou no lugar: um modelo treinado em português brasileiro, com base jurídica, que roda localmente e não tem custo por consulta.
3. Começar pelo banco vetorial mais amigável
O banco vetorial escolhido inicialmente tinha persistência automática e API mais simpática, mas acrescentava alguns segundos de espera a cada consulta na interface. Para demonstração e uso individual, o índice local com leitura imediata era mais rápido. O que ficou no lugar: o índice local como padrão, e o outro caminho disponível por configuração.
4. Blocos sem sobreposição
Sem sobreposição, a pergunta cujo trecho relevante ficava na virada de um bloco não encontrava resposta: o contexto estava cortado na borda. Ao adicionar sobreposição, o ganho percebido nos testes com perguntas sobre artigos da Constituição foi grande — na ordem de um terço a mais de acerto.
A separação que sustenta tudo
O projeto decide usar dois modelos com funções diferentes: um para entender e representar o texto em português jurídico, outro para raciocinar e escrever a resposta. É uma escolha de arquitetura, não de preferência — forçar o mesmo modelo a fazer as duas coisas piora as duas.
- Recuperar é encontrar o trecho certo no acervo do escritório.
- Gerar é escrever a resposta a partir do que foi recuperado.
- Sem a primeira etapa bem feita, a segunda só produz texto convincente.
Por que isso interessa ao escritório
- Pesquisa em linguagem natural sobre o material que o escritório escolheu indexar.
- Resposta limitada aos documentos reais, com citação de documento e página.
- Controle sobre o que entra no acervo — e, portanto, sobre a atualização.
- Modelo de vetor rodando localmente, sem custo por consulta e sem mandar o documento para fora.
- Aprendizado rápido: o projeto foi feito com fins educacionais e de pesquisa, e assume isso.
O custo e o limite
O sistema responde a partir do que foi indexado. Se o escritório indexa documento desatualizado, a resposta será uma citação perfeita de algo que não vale mais. Atualizar o acervo continua sendo trabalho do escritório — e conferir a fonte continua sendo trabalho do advogado.
- O modelo de vetor é grande e pede alguns gigabytes de memória para rodar na máquina.
- A geração de texto é opcional e depende de serviço externo; sem ela, o sistema devolve apenas os trechos.
- É material de estudo: não substitui orientação jurídica e não foi feito para operação multiusuário.
- O roteiro do projeto já prevê reordenação dos resultados, filtro por tipo de documento e métricas de qualidade.
Como avaliar em uma semana
- Escolha um tema recorrente e indexe os documentos que o escritório já usa sobre ele.
- Faça dez perguntas que hoje exigiriam leitura de muitas páginas.
- Confira se cada resposta aponta documento e página corretos.
- Teste uma pergunta sobre conceito que costuma aparecer com nome diferente nas peças.
- Meça o tempo até a resposta útil, comparando com a pesquisa manual.
Em recuperação de informação jurídica, o que não funcionou ensina mais rápido do que a demonstração que deu certo.Equipe IDEIA
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